O Batismo e Garabandal
BATIZADOS PARA O JUÍZO DA LUZ:
GARABANDAL E O DRAMA DA FIDELIDADE BATISMAL

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PAX
Ave Maria, Regina Pacis
As aparições de Garabandal não podem ser lidas como um episódio isolado da piedade popular, nem como um acréscimo extraordinário à Revelação. Elas se compreendem corretamente apenas quando inseridas no drama sacramental da Igreja, especialmente no mistério do Batismo, onde começa a história da salvação em cada pessoa concreta. Garabandal não anuncia algo novo; denuncia o esquecimento do essencial. É um grito materno diante de uma humanidade batizada que já não vive como tal.
O Batismo não é apenas um rito de iniciação, mas uma configuração ontológica. Pela imersão sacramental, o homem é arrancado da ordem puramente natural e introduzido na ordem sobrenatural. Como ensina a Igreja, o Batismo nos faz "participar da natureza divina" (cf. 2Pd 1,4), imprime um caráter indelével e nos insere no Corpo Místico de Cristo (cf. CIC, 1265–1274). Isso significa que, desde o Batismo, a vida do cristão está sob o sinal do juízo, não no sentido condenatório, mas no sentido bíblico: viver permanentemente exposto à verdade de Deus. É precisamente aqui que Garabandal toca com força. A mensagem insiste na conversão, na penitência, na Eucaristia vivida com reverência, porque o Batismo, quando não é assumido existencialmente, transforma-se num dom estéril, quase numa acusação silenciosa. Nosso Senhor já advertia: "A quem muito foi dado, muito será pedido" (Lc 12,48). Garabandal não fala aos pagãos; fala aos batizados.
A Escritura apresenta o Batismo como um verdadeiro êxodo interior. São Paulo afirma que, no Batismo, morremos e ressuscitamos com Cristo (cf. Rm 6,3-11). Não se trata de uma metáfora moral, mas de um acontecimento real no plano da graça. O batizado pertence a Cristo, foi comprado por um preço (cf. 1Cor 6,19-20). Por isso, a vida cristã não é neutra: ou ela se desenvolve como fidelidade, ou degenera em infidelidade sacramental. O Batismo de Jesus no Jordão ilumina dramaticamente essa verdade. Ao entrar nas águas, Cristo assume sobre si o peso da humanidade pecadora, antecipando sacramentalmente a Cruz.
O Jordão já aponta para o Calvário. O céu que se abre ali é o mesmo céu que será definitivamente aberto pela lança no lado de Cristo. Quando o Pai proclama: "Este é o meu Filho amado" (Mt 3,17), Ele revela não apenas quem é Jesus, mas quem somos chamados a ser Nele. O batizado participa dessa filiação, mas também dessa obediência até o fim. Garabandal recorda que essa filiação está sendo vivida de forma superficial. A insistência na Eucaristia não é acidental. O Batismo tende naturalmente ao altar. Quem nasce de novo na água e no Espírito é chamado a viver da Carne e do Sangue do Filho do Homem (cf. Jo 6,53). Contudo, quando a Eucaristia se torna rotina, quando se perde o senso do sagrado, o Batismo é esvaziado de sua força transformadora. O sacramento da regeneração exige coerência sacramental.
A dimensão penitencial de Garabandal também é profundamente batismal. O Batismo perdoa todos os pecados, mas não elimina a concupiscência nem a possibilidade da queda. Por isso, a Igreja sempre ensinou que a vida cristã é uma penitência contínua, uma luta espiritual. Nossa Senhora, ao pedir sacrifícios e penitência, não propõe um rigorismo, mas a lógica do Evangelho: "Se não vos converterdes, perecereis todos" (Lc 13,3). A conversão é o modo ordinário de preservar viva a graça batismal. O chamado ao Aviso, tão característico da espiritualidade de Garabandal, deve ser lido à luz do Batismo como iluminação. Na Igreja antiga, o Batismo era chamado de photismós,
iluminação.
O Aviso, compreendido espiritualmente, aparece como uma revelação interior da verdade da própria alma diante de Deus. Isso não é estranho à tradição católica: cada batizado caminhará para o momento em que sua consciência será plenamente iluminada pela verdade divina (cf. Rm 14,12; 2Cor 5,10). Garabandal apenas antecipa, pedagogicamente, essa realidade escatológica.
Nossa Senhora, como Mãe, aparece em Garabandal não para assustar, mas para recordar a identidade batismal dos seus filhos. Ela fala como em Caná: "Fazei tudo o que Ele vos disser" (Jo 2,5). E o que Cristo disse desde o início de sua pregação? "Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15). O Batismo é o início dessa fé; a conversão é a sua perseverança. A crise que Garabandal denuncia é, no fundo, uma crise batismal: cristãos que vivem como se não tivessem morrido para o pecado; batizados que já não se reconhecem como templo do Espírito; filhos que esqueceram o Pai. Por isso, a mensagem é urgente. Não porque o tempo esteja acabando, mas porque a graça está sendo desperdiçada.
Esta meditação exige uma resposta pessoal. O Batismo não é algo do passado; é um presente permanente. Cada Eucaristia, cada Confissão, cada ato de penitência é uma renovação das promessas batismais. Garabandal nos pergunta, com delicadeza e firmeza maternas: o que fizeste do teu Batismo?
Garabandal não é um consolo espiritual para almas piedosas; é uma acusação dirigida aos batizados. Sua mensagem não se volta aos que ignoram Cristo, mas àqueles que foram mergulhados em Seu Nome e vivem como se nunca tivessem morrido com Ele. O drama revelado em Garabandal não é a falta de religião no mundo, mas a infidelidade sacramental dentro da Igreja. O que ali ressoa é o lamento de uma Mãe que vê filhos marcados pelo Batismo, mas desfigurados na vida. O Batismo é um acontecimento irreversível. Pela água e pelo Espírito, o homem é ontologicamente deslocado: deixa de pertencer apenas a si mesmo e passa a pertencer a Cristo (cf. 1Cor 6,19). A teologia da Igreja é clara: o caráter batismal imprime uma configuração permanente que nem o pecado apaga. Mas aquilo que o pecado não apaga, ele pode profanar. Eis o ponto central de Garabandal: o Batismo não perdido, mas traído.
Desde o início, a Sagrada Escritura apresenta o Batismo como passagem pelo juízo de Deus. As águas do dilúvio, que destroem e salvam ao mesmo tempo, são figura do Batismo (cf. 1Pd 3,20- 21). O Mar Vermelho, que liberta Israel e sepulta o exército do Faraó, antecipa a mesma lógica. Ser batizado é passar por uma fronteira sem retorno: ou se caminha para a Terra Prometida, ou se morre no deserto. Garabandal denuncia precisamente isso: uma geração batizada que prefere o deserto da tibieza à radicalidade da promessa.
O Batismo de Jesus no Jordão é a chave interpretativa definitiva. Cristo entra nas águas não para receber algo, mas para assumir um destino. O Espírito que desce não o poupa da Cruz; ao contrário, o envia para ela (cf. Mt 4,1). Quando o Pai proclama Seu agrado, Ele sela um caminho de obediência que culminará no abandono do Gólgota. Todo batizado que escuta no íntimo "tu és meu filho" escuta, ao mesmo tempo, "toma a tua cruz" (cf. Mt 16,24). Separar filiação de cruz é fabricar um cristianismo falso.
Garabandal desmascara essa falsificação. A insistência na penitência não é acessória, mas estrutural. Onde não há penitência, o Batismo degenera em sentimentalismo religioso. A doutrina católica sempre ensinou que a graça batismal exige cooperação e combate espiritual. "Não extingais o Espírito" (1Ts 5,19). Contudo, a tibieza — esse pecado tipicamente batismal — cria cristãos que comungam sem temor, confessam-se sem arrependimento e rezam sem conversão. Garabandal não condena; expõe.
A centralidade da Eucaristia na mensagem é ainda mais severa. O Batismo confere o direito ao altar, mas também impõe o dever da reverência. Receber o Corpo do Senhor em estado de pecado grave não é apenas uma falta moral; é uma contradição sacramental, um testemunho falso contra a própria identidade batismal. São Paulo não hesita em usar linguagem dura: "É por isso que muitos estão fracos e doentes, e não poucos morreram" (1Cor 11,30). Garabandal ecoa essa seriedade esquecida.
O chamado ao Aviso revela o ponto mais radical da espiritualidade de Garabandal: a restauração da verdade interior. O Batismo, chamado pelos Padres de iluminação, será confrontado com sua realidade existencial. Cada batizado será levado a ver, sem máscaras, o que fez da graça recebida. Isso não contradiz a doutrina católica; ao contrário, a intensifica. O juízo particular é certo; Garabandal sugere uma pedagogia misericordiosa antes do colapso final da consciência. Não se trata de terror, mas de verdade — e a verdade salva ou acusa.
Maria aparece em Garabandal como a Mãe da Igreja ferida. Ela não fala como uma devota piedosa, mas como aquela que conhece o preço do Sangue com que fomos batizados. Seu apelo é simples e devastador: conversão, Eucaristia, penitência. Nada de extraordinário, porque o extraordinário seria continuar indiferente depois de tanto ter sido dado. "Por que me chamais "Senhor, Senhor'" e não fazeis o que Eu digo?" (Lc 6,46).
O pecado denunciado em Garabandal não é a negação explícita da fé, mas a apostasia prática: viver como se Deus não fosse decisivo, como se o Batismo não tivesse consequências eternas. Esse é o pecado mais perigoso, porque se instala dentro da normalidade religiosa. O batizado torna- se surdo ao chamado, cego à própria miséria, confortável na mediocridade.
Este texto não pede admiração, pede decisão. Garabandal não chama a "acreditar" nas aparições, mas a retornar ao Batismo. Renovar as promessas batismais não é um rito simbólico; é uma sentença sobre a própria vida. Renunciar a Satanás significa romper com estruturas concretas de pecado. Crer na Igreja significa submeter-se à sua disciplina sacramental. Seguir Cristo significa aceitar a lógica da Cruz.
No fim, não seremos julgados pelo que sentimos, mas pelo que fizemos com a graça. O Batismo nos colocou definitivamente do lado da luz — mas a luz pode ser rejeitada. Garabandal nos confronta com essa possibilidade não para nos condenar, mas para nos arrancar da indiferença. Porque, no último dia, não seremos perguntados se tivemos experiências espirituais, mas se vivemos como batizados. E essa pergunta, à luz de Garabandal, já começou a ecoar.
Que Nossa Senhora nos conduza de volta às águas do Jordão, não para recomeçar o sacramento, mas para assumir suas consequências. Que ela nos ajude a viver como aqueles que já foram iluminados, já morreram com Cristo e já pertencem ao Reino, mesmo caminhando ainda neste mundo. Porque, no fim, só haverá duas realidades: a luz acolhida ou a luz rejeitada. O Batismo nos colocou diante dessa escolha — e Garabandal nos recorda que ela é inadiável.
Da pequena Cidade de Maria, com orações e minha bênção sacerdotal +
Pe. Viana
Apostolado de Garabandal em língua portuguesa, 11 de Janeiro de 2026
