Garabandal e a lei cumprida no coração

O Sexto Domingo do Tempo Comum, ao propor Evangelho segundo Mateus 5,17-37, conduz-nos ao núcleo mais exigente da revelação moral cristã: a interiorização radical da Lei. Cristo não a abole; Ele a cumpre, isto é, a reconduz à sua fonte eterna no coração do Pai. A justiça superior exigida aos discípulos não é aumento quantitativo de observâncias, mas participação qualitativa na obediência filial do Filho. A moral do Reino nasce da comunhão com Ele. Toda a radicalidade do texto — a superação da ira, a purificação do olhar, a integridade da palavra — não é simples elevação ética, mas transformação ontológica operada pela graça.
É neste horizonte que se pode compreender, com discernimento e sob a luz da Igreja, o conteúdo espiritual atribuído às mensagens de Garabandal. Em 18 de outubro de 1961, a primeira mensagem transmitida pelas jovens videntes sintetizava-se numa fórmula simples e severa: é necessário fazer muitos sacrifícios, muita penitência, visitar frequentemente o Santíssimo Sacramento; caso contrário, virá um castigo. E acrescentava-se que o cálice já estava enchendo. Esta linguagem, profundamente bíblica, ecoa o tom profético do Evangelho. Cristo, no Sermão da Montanha, revela que o pecado não é apenas ato externo, mas ruptura interior que acumula desordem no coração humano. A imagem do cálice que se enche pode ser lida teologicamente como símbolo da gravidade objetiva do pecado quando este se banaliza e se multiplica na história.
A segunda mensagem, em 18 de junho de 1965, torna o apelo ainda mais incisivo: muitos cardeais, bispos e sacerdotes caminham pela estrada da perdição e arrastam consigo muitas almas; à Eucaristia não se dá a importância devida; é preciso evitar a ira de Deus com sincera conversão. Aqui emerge um elemento que dialoga diretamente com Mateus 5. A justiça superior começa naqueles que ensinam. Se a Lei é interiorizada, isso vale primeiramente para os pastores. Cristo dirige-se aos discípulos, mas a tradição sempre leu o Sermão da Montanha como carta magna da santidade apostólica. A crítica profética não visa destruir a Igreja, mas purificá-la. Toda autêntica mensagem mariana, quando chama à conversão do clero e dos fiéis, não cria divisão, mas recorda que a santidade é condição de credibilidade e fecundidade pastoral.
O tema central de Garabandal — Aviso, Milagre e eventual Castigo — deve ser compreendido com sobriedade teológica. O chamado "Aviso", descrito como iluminação universal das consciências, pode ser interpretado à luz do próprio Evangelho como antecipação simbólica do juízo. Mateus 5 já é essa iluminação: ele revela que a ira já é homicídio em germe, que o olhar impuro já contém a ruptura da aliança, que a palavra duplicada já manifesta divisão interior. A diferença entre uma eventual manifestação extraordinária e a Palavra proclamada na liturgia é apenas de intensidade sensível; ontologicamente, o Evangelho já julga e ilumina. A cada proclamação, Cristo nos coloca diante da verdade de nós mesmos. O apelo insistente à Eucaristia, presente nas mensagens, encontra fundamento direto na teologia da Nova Lei. Se a Lei é cumprida em Cristo, é na comunhão com Ele que se torna possível viver a justiça superior. A visita frequente ao Santíssimo Sacramento não é prática devocional isolada, mas escola de interiorização. Diante da presença real, o coração aprende a reconciliar-se antes de oferecer o dom no altar, a purificar o olhar antes de aproximar-se do Corpo entregue, a simplificar a palavra diante daquele que é a Verdade. Pastoralmente, isso significa que a renovação moral da comunidade não começa por estratégias, mas pela centralidade eucarística vivida com fé consciente.
A insistência na penitência e no sacrifício também se harmoniza com o dinamismo do Sermão da Montanha. A superação da ira exige mortificação do amor-próprio; a pureza do olhar requer disciplina interior; a integridade da palavra pede domínio da própria vaidade. A penitência cristã não é autodesprezo, mas cooperação com a graça que purifica os afetos desordenados. Num contexto cultural marcado pela busca incessante de conforto e autoafirmação, a linguagem de sacrifício pode parecer anacrônica; todavia, teologicamente, ela é condição de liberdade. O coração só se torna indiviso quando aprende a renunciar àquilo que o fragmenta. Outro elemento importante é a dimensão escatológica. Garabandal insere-se na longa tradição de apelos marianos que recordam a seriedade do tempo. Mateus 5, ao afirmar que nem um i da Lei passará até que tudo se cumpra, aponta para a tensão entre o já e o ainda não. A história é espaço de misericórdia, mas também de responsabilidade. A eventual referência a castigo não deve ser lida como ameaça arbitrária, mas como consequência da liberdade humana quando se fecha à graça. Deus não deseja punir; Ele deseja salvar. Porém, a recusa persistente da conversão gera consequências históricas e espirituais.
Pastoralmente, isso implica formar os fiéis para uma espiritualidade adulta, capaz de integrar misericórdia e verdade. Não se trata de alimentar curiosidade apocalíptica, mas de despertar consciência moral. O perigo real não é a falta de fenómenos extraordinários, mas a anestesia espiritual. O maior castigo é o endurecimento do coração. O maior milagre é a conversão sincera. Se o Evangelho é levado a sério, cada reconciliação sacramental já é milagre; cada coração purificado já é triunfo da graça. A crítica à perda do sentido da Eucaristia, presente na segunda mensagem, dialoga profundamente com o trecho: "Se fores apresentar tua oferta no altar e te lembrares que teu irmão tem algo contra ti…". A comunhão eucarística exige comunhão real. A banalização da presença sacramental está ligada à banalização do pecado. Quando o coração já não percebe a gravidade da ira ou da impureza interior, também deixa de perceber a grandeza da Eucaristia. A reforma eclesial começa pela redescoberta da santidade do altar.
Em última análise, o encontro entre Mateus 5 e o conteúdo espiritual de Garabandal converge num único ponto: Deus quer o coração inteiro. A radicalidade do Evangelho não é acréscimo de peso, mas revelação da dignidade da vocação humana. Maria, na tradição da Igreja, aparece sempre como Mãe que chama à fidelidade ao Filho. Se suas palavras são severas, é porque o amor é sério. A plenitude da Lei é a caridade; e a caridade exige verdade, pureza e integridade.
Assim, o Sexto Domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de uma decisão existencial. Permanecer na superficialidade religiosa ou permitir que a Palavra ilumine as profundezas do coração. O verdadeiro "aviso" é a consciência tocada pela graça; o verdadeiro "milagre" é a transformação interior; o verdadeiro "castigo" é fechar-se à conversão. E a verdadeira plenitude daLei realiza-se quando, unidos a Cristo na Eucaristia, podemos dizer um "sim" simples e indiviso ao Deus que nos chama à santidade.
Da pequena Cidade de Maria, com orações e minha bênção sacerdotal +
Pe. André Viana,
Apostolado de Garabandal, Fevereiro 2026
