Garabandal como hermeneutica do Evangelho


As aparições de Nossa Senhora em Garabandal não podem ser compreendidas adequadamente  se forem lidas apenas como um conjunto de mensagens isoladas, advertências proféticas ou anúncios escatológicos. Elas exigem uma leitura teológica, espiritual e eclesial, profundamente enraizada no Evangelho e na tradição viva da Igreja. Garabandal pertence àquela categoria de manifestações marianas que funcionam como uma pedagogia de urgência, não porque tragam algo novo à Revelação, mas porque recolocam, com radicalidade, verdades evangélicas que o tempo, a rotina pastoral e a acomodação espiritual tornaram opacas.


O Evangelho do quinto domingo do Tempo Comum — "Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo" (Mt 5,13-16) — oferece uma chave hermenêutica privilegiada para penetrar no núcleo da espiritualidade de Garabandal. Trata-se de um texto que não fala de intenções, mas de identidade; não de projetos, mas de ontologia espiritual. Jesus não propõe um ideal distante: Ele revela o que o discípulo é chamado a ser no mundo pela configuração com Ele. Garabandal, por sua vez, é um apelo materno para que essa identidade não se dissolva, não se deteriore, não se torne irreconhecível.

No horizonte bíblico, o sal possui um significado denso e multifacetado. Ele preserva da corrupção, dá sabor e, no Antigo Testamento, está ligado à aliança ("aliança de sal" – cf. Nm 18,19). Quando Cristo afirma que o discípulo é o sal da terra, Ele o vincula diretamente à lógica da aliança: o cristão existe para impedir que o mundo apodreça espiritualmente, para preservar nele o traço da verdade, para manter viva a memória de Deus em meio à história. Jesus não diz "vós deveis ser", mas "vós sois". O sal não é um adorno: é elemento essencial. Ele conserva da corrupção, purifica e dá sabor. Quando perde sua força, torna-se inútil. A advertência é clara: há uma forma de viver a fé que, embora conserve aparências religiosas, já não transforma, já não preserva, já não evangeliza.

Em Garabandal, Nossa Senhora insiste com gravidade: "Muitos cardeais, bispos e sacerdotes estão a caminho da perdição e levam consigo muitas almas". Essa frase, dura e desconcertante, não deve ser lida como acusação sensacionalista, mas como um clamor materno: quando aqueles que deveriam ser sal deixam de viver segundo a verdade do Evangelho, todo o corpo sofre. O sal que perde o sabor é a fé vivida sem conversão, o cristianismo reduzido a costume social, a prática religiosa desvinculada da vida interior.

A mensagem de Garabandal recorda que o sal da terra não é a quantidade de atividades pastorais, mas a santidade real, silenciosa e sacrificial. O mundo não precisa de cristãos "adaptados", mas de cristãos transformados. A Eucaristia — tantas vezes profanada, esquecida ou recebida sem consciência — aparece em Garabandal como o ponto nevrálgico da perda do sabor da fé. Onde a Eucaristia deixa de ser o centro, o sal se dilui. A advertência de Jesus — "se o sal perder o sabor…" — é de uma gravidade teológica extrema. Não se trata de um fracasso externo, mas de uma corrupção interna: o sal não deixa de existir, mas deixa de ser aquilo que é por natureza. É precisamente aqui que a mensagem de Garabandal se torna teologicamente incisiva. Quando Nossa Senhora denuncia a perda do sentido do pecado, a banalização da Eucaristia e a infidelidade de ministros sagrados, ela não está fazendo uma crítica moralista, mas revelando uma crise ontológica da identidade cristã. O sal perdeu o sabor porque a fé deixou de ser vivida como conversão permanente.

Garabandal insiste na centralidade da Eucaristia não como devoção opcional, mas como critério de autenticidade da fé. Onde a Eucaristia é reduzida a rito social, onde a comunhão não é precedida por exame de consciência e reconciliação, o sal começa a se diluir. O mundo deixa de ser preservado não porque faltem estruturas, mas porque falta santidade. A Igreja não perde força por perseguição externa, mas por infidelidade interna.

A imagem da luz, no Evangelho, está intimamente ligada à verdade. A luz não negocia com as trevas; ela as dissipa. Ser luz do mundo não significa ser aceito pelo mundo, mas iluminá-lo, mesmo ao custo da rejeição. A luz evangélica possui uma dimensão inevitavelmente escatológica: ela antecipa, no tempo, o juízo de Deus, revelando o que é verdadeiro e o que é falso, o que é autêntico e o que é aparência.


Em Garabandal, essa dimensão se manifesta de forma particularmente forte na noção do Aviso, entendido como uma iluminação universal da consciência. Teologicamente, trata-se de uma antecipação misericordiosa do juízo particular: não para condenar, mas para revelar. A luz, quando chega, não cria o pecado; ela o manifesta. Por isso, o Aviso não deve ser lido como ameaça, mas como expressão extrema da paciência divina, que deseja que todos tenham a possibilidade de ver- se à luz da verdade antes do fechamento definitivo da história pessoal.

A luz não grita, não impõe, mas revela. Ela mostra as coisas como são. Por isso, incomoda. Jesus afirma que a luz não pode ser escondida. Uma cidade edificada sobre o monte é visível de longe. O cristão não pode viver uma fé intimista, reduzida ao espaço privado, sem consequências públicas.
Em Garabandal, as aparições acontecem à vista de todos, na praça, nas ruas, nos caminhos da aldeia. A pedagogia mariana é profundamente evangélica: a fé deve tornar-se visível, concreta, encarnada. Nossa Senhora não pede discursos, mas vida coerente. A luz que ela aponta é a da verdade vivida — verdade sobre Deus, sobre o pecado, sobre a necessidade de conversão. A espiritualidade de Garabandal é, portanto, profundamente anti-ilusionista. Ela denuncia a fé vivida na superficialidade, a prática sacramental sem conversão interior, a religiosidade desvinculada da cruz. Maria aparece como Mãe que não anestesia, mas desperta. Sua luz não é suave no sentido sentimental; é suave no sentido evangélico: ilumina sem destruir, revela sem humilhar, chama sem forçar.


O coração da mensagem de Garabandal não é o temor, mas a conversão. O medo paralisa; a conversão mobiliza. Nossa Senhora insiste na necessidade de mudar de vida agora, antes que o homem seja obrigado a ver-se como realmente é. O Evangelho confirma: "Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras" (Mt 5,16).

A imagem da luz, no Evangelho, está intimamente ligada à verdade. A luz não negocia com as trevas; ela as dissipa. Ser luz do mundo não significa ser aceito pelo mundo, mas iluminá-lo,
mesmo ao custo da rejeição. A luz evangélica possui uma dimensão inevitavelmente escatológica: ela antecipa, no tempo, o juízo de Deus, revelando o que é verdadeiro e o que é falso, o que é autêntico e o que é aparência.


Em Garabandal, essa dimensão se manifesta de forma particularmente forte na noção do Aviso, entendido como uma iluminação universal da consciência. Teologicamente, trata-se de uma antecipação misericordiosa do juízo particular: não para condenar, mas para revelar. A luz, quando chega, não cria o pecado; ela o manifesta. Por isso, o Aviso não deve ser lido como ameaça, mas como expressão extrema da paciência divina, que deseja que todos tenham a possibilidade de ver- se à luz da verdade antes do fechamento definitivo da história pessoal.

A luz não grita, não impõe, mas revela. Ela mostra as coisas como são. Por isso, incomoda. Jesus afirma que a luz não pode ser escondida. Uma cidade edificada sobre o monte é visível de longe. O cristão não pode viver uma fé intimista, reduzida ao espaço privado, sem consequências públicas. Em Garabandal, as aparições acontecem à vista de todos, na praça, nas ruas, nos caminhos da aldeia. A pedagogia mariana é profundamente evangélica: a fé deve tornar-se visível, concreta, encarnada. Nossa Senhora não pede discursos, mas vida coerente. A luz que ela aponta é a da verdade vivida — verdade sobre Deus, sobre o pecado, sobre a necessidade de conversão.

A espiritualidade de Garabandal é, portanto, profundamente anti-ilusionista. Ela denuncia a fé vivida na superficialidade, a prática sacramental sem conversão interior, a religiosidade desvinculada da cruz. Maria aparece como Mãe que não anestesia, mas desperta. Sua luz não é suave no sentido sentimental; é suave no sentido evangélico: ilumina sem destruir, revela sem humilhar, chama sem forçar. O coração da mensagem de Garabandal não é o temor, mas a conversão. O medo paralisa; a conversão mobiliza. Nossa Senhora insiste na necessidade de mudar de vida agora, antes que o homem seja obrigado a ver-se como realmente é. O Evangelho confirma: "Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras" (Mt 5,16).


4
A luz cristã não é autorreferencial. Ela não aponta para si mesma, mas para o Pai. Em Garabandal, Maria não ocupa o centro; ela conduz. Toda a espiritualidade autêntica mariana é cristocêntrica, eucarística e eclesial. Onde Maria é verdadeiramente acolhida, cresce o amor à confissão frequente, à Missa bem vivida, ao sacrifício escondido, à fidelidade cotidiana. Ser sal e luz, à luz de Garabandal, significa aceitar viver uma fé que custa. Uma fé que exige renúncia, vigilância, discernimento. Uma fé que não se negocia com o espírito do mundo. O cristão que aceita essa lógica torna-se sinal de contradição, mas também farol de esperança.

A conversão, em Garabandal, não é apresentada como evento pontual, mas como estado permanente da alma. Trata-se de uma conversão que envolve inteligência, vontade e afetividade; uma mudança de mentalidade ( metanoia) que atinge a forma de pensar Deus, a Igreja, o pecado, a salvação. É exatamente essa conversão que permite ao cristão permanecer sal e luz. O Evangelho afirma que a luz deve brilhar "para que vejam as vossas boas obras". Não se trata de moralismo, mas de sacramentalidade da vida: a existência cristã torna-se sinal visível de uma realidade invisível. Garabandal insiste na penitência, no sacrifício, na oração, não como práticas isoladas, mas como expressão de uma vida configurada a Cristo crucificado. Sem cruz, o cristianismo torna-se estético; sem sacrifício, torna-se ideológico; sem penitência, torna-se psicológico. Maria, em Garabandal, forma consciências maduras, não devotos frágeis. Ela chama à responsabilidade espiritual pessoal, especialmente em um tempo em que se terceiriza a santidade: espera-se que a Igreja, os pastores ou as estruturas façam aquilo que cada batizado é chamado a viver.

Um dos aspetos mais delicados — e mais profundos — de Garabandal é sua dimensão intraeclesial. A advertência dirigida a ministros ordenados deve ser lida à luz da teologia do ministério: quanto maior a graça, maior a responsabilidade; quanto mais elevada a missão, mais grave a infidelidade. O escândalo não está no fato de existirem pecadores na Igreja, mas no fato de o pecado deixar de ser reconhecido como tal. Aqui, Garabandal dialoga diretamente com o Evangelho: o sal que perde o sabor é lançado fora e pisado. Trata-se de uma imagem duríssima, que aponta para a perda da credibilidade espiritual. A Igreja não perde autoridade quando é pequena ou perseguida, mas quando deixa de ser transparente à verdade que anuncia.

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Ler Garabandal à luz do Evangelho do quinto domingo do Tempo Comum é aceitar um chamado exigente: recuperar a densidade espiritual da fé, reencontrar o temor de Deus que gera amor verdadeiro, e viver uma santidade que não negocia com a mediocridade. Trata-se de um apelo não para curiosos, mas para discípulos; não para espectadores, mas para testemunhas. Maria é, por excelência, sal da terra e luz do mundo, não por si mesma, mas porque foi totalmente transparente à graça. Em Garabandal, ela ensina que a santidade não é exceção, mas vocação. O Evangelho do quinto domingo do Tempo Comum encontra nela sua expressão mais pura: uma vida escondida que ilumina o mundo inteiro.

Escutar Garabandal à luz do Evangelho é aceitar um chamado sério, profundo e exigente: viver uma fé que conserva o mundo da corrupção e o ilumina na escuridão. Não com palavras vazias, mas com uma vida entregue, eucarística, penitente e fiel. Maria é a realização plena do que significa ser sal da terra e luz do mundo. Não por protagonismo, mas por transparência absoluta à graça. Em Garabandal, ela não pede nada diferente daquilo que viveu: fé radical, obediência concreta, humildade profunda, fidelidade silenciosa. Se o mundo hoje parece mais escuro e sem sabor, não é porque a luz se apagou ou o sal deixou de existir, mas porque muitos deixaram de ser aquilo que receberam no batismo. Garabandal permanece como um grito materno no coração da Igreja: não percais o sabor, não escondais a luz ainda há tempo.

Da pequena Cidade de Maria, com orações e minha bênção sacerdotal +

Pe. André Viana


Apostolado de Garabandal em língua portuguesa, Fevereiro 2026